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Pedro Jansen é jornalista, autor do livro "Deus Ex Machina - Quando o Rock Teresinense Nasceu do Nada" e blogueiro desde 2001. Foi repórter do jornal O DIA - PI e da revista VIP, da editora ABRIL. Atualmente é co-editor do Calo na Orelha e colaborador do Dois Dedos na Garganta.

Amigos porção-única

10, dezembro de 2008, 21:21 | Colunas

Tem certas coisas que não se esquece, de tão impactantes/interessantes que elas são.  Ok, isso varia de pessoa pra pessoa, nem tudo que é impactante pra mim, é pra você, certo? Certo. Mas vamos a alguns clássicos do gênero “coisas que não se esquece nem ferrando”:

1 - primeiro beijo: lá na tenra infância/adolescência/idade adulta [vai saber, né?] sua beija encontra a de outrem que te desperta emoção/tesão. Lábio, dente, língua, saliva… uma maravilha.

2 - primeira transa: não, o amasso no banco de trás do carro do pai não conta. Não, “meia transa” [use a imaginação] não conta. Conta só aquela vez em que você realmente decidiu trocar fluidos com outra criatura, de camisinha [isso se você for esperto, claro], e com mãos, joelhos e muito desencontro. Incrível como a raça humana ainda exista.

3 - esta cena de Clube da Luta: [cuidado com o spoiler]

Narrator: Tyler, you are by far the most interesting single-serving friend I’ve ever met… see I have this thing: everything on a plane is single-serving…
Tyler Durden: Oh I get it, it’s very clever.
Narrator: Thank you.

 

Se você não lembra, ou não viu, é quando o Narrador diz que tudo no avião é porção única, inclusive os “amigos” que você faz durante o vôo. E é impactante pela clareza deste “conceito” desenvolvido pelo Narrador e que quando você o abraça, certas coisas da vida passam a fazer mais sentido. E é isso que motiva a minha coluna de hoje, embora eu não vá falar de aviões.

Pois bem, a história é sobre táxis. Porque não há amigos porção-única mais interessantes que taxistas, mesmo que eles te encham o saco às vezes. Sim, não é todo dia que você quer conversar, ouvir aquela história incrível ou saber das novidades do mundo do futebol. Às vezes você só quer que ele ultrapasse o limite de velocidade e fure uns sinais vermelhos para você conseguir chegar no horário.

Mas quando você quer conversar, ah!, meu amigo, aí você tem a companhia perfeita. Puxe qualquer assunto que o taxista te acompanhará. No mínimo vai dar um jeito de fazê-lo até conseguir mudar de assunto. Mas a conversa não vai acabar jamais.

Certa vez fui a Capinas visitar um amigo que cursava mestrado por lá e ao chegar à rodoviária da cidade apanhei um táxi. “Boa noite, seu nome, qual é?”, “Fulano.” “Seu Fulano, meu nome é Pedro, tudo bem? Vamos na rua X, número Y, por favor?”. Este é o procedimento padrão e saber o nome do sujeito é uma obrigação para mim, já que detesto me referir às pessoas sem ser pelo nome delas.

Tomamos o caminho. Na primeira curva, fiz minha pergunta clássica: “começando ou terminando a noite, seu Fulano?”. Isso sempre provoca uma reação do taxista, seja de alívio por terminar mais uma jornada, seja de resignação por estar apenas no início. “Começando. Ainda tem muita viagem pela frente”, respondeu ele, que seguiu. “Pelo seu sotaque você não é daqui, né?”.

Então expliquei que sou do Piauí e que moro em São Paulo a menos de dois anos e que estava indo visitar um amigo de longa data que era do mesmo estado que eu e que agora fazia mestrado em Física na UNICAMP. “Mestrado, é? Que bacana”. Afirmei que sim e seguimos viagem. Duas curvas depois, lá vem o seu Fulano. “Mas ele é daqui de São Paulo?” Achei que ele estava distraído com o trajeto e respondi que não, que ele era do Piauí também, assim como eu. “Ah!, você é do Piauí? Achava que era daqui de Campinas…”. Sim, havia apanhado o táxi de um maluco/surdo.

Mas, no fim das contas, essa é só uma história entre tantas. Se você não estiver emburrado ou de saco cheio, pode apostar que é uma boa opção pra jogar aquela conversa fora. Ou para te manter acordado. E se você der sorte, pode até deixar a corrida mais barata, como já aconteceu comigo.