Maysa, uma cantora solitária em uma multidão de amores
A cantora é um marco na expressão do talento na vida de um artista.
Com a entrada no ar da minissérie Maysa - Quando Fala o Coração, é líquido e certo que muitos telespectadores ouvirão falar pela primeira vez no nome de uma das cantoras brasileiras mais polêmicas e apaixonantes de todos os tempos. Nascida em São Paulo em 1936, foi intérprete e compositora de clássicos da MPB como a trilha sonora informal de toda grande fossa amorosa “Meu Mundo Caiu”: “Sei que você me entendeu/ Sei também que não vai se importar/ Se meu mundo caiu/ Eu que aprenda a levantar”. Confiram, a seguir, Maysa Figueira Monjardim Matarazzo cantando “Meu Mundo Caiu” em uma TV japonesa, no longínquo ano de 1960, em uma raridade encontrada pelo blog Bossa Brasileira.
Apesar de ter sido marcada por dar voz a gravações dramaticamente melancólicas, a mãe do diretor Jayme Monjardim também merece menção pelas frases espirituosas que retratam bem sua forte personalidade. Esta, por exemplo, merece menção em qualquer antologia de boas tiradas: “Eu odeio pessoas que entram num bar e não bebem. Eu odeio testemunhas. Um bar é um templo: entrou, tem que beber!” A cantora, que será interpretada na minissérie pela atriz gaúcha Larissa Maciel, teve sua vida retratada em uma elogiada biografia, Maysa - Só Numa Multidão de Amores, de Lira Neto, e não raro desferia suas ironias cáusticas contra si mesma. Disse, por exemplo, em referência a seus problemas com peso e alcoolismo: “Eu não perdi quilos, eu perdi litros”. A compositora de “Felicidade Infeliz” também cunhou a seguinte pérola: “Se sou feliz? Felicidade é coisa de gente burra”. A seguir, outra interpretação marcante: “Light My Fire”, sucesso do grupo The Doors interpretado por Maysa em um show no Canecão, em 1969.
Maysa viveu amores turbulentos, teve problemas com bebida, estampou inúmeras capas de revistas de fofocas, protagonizou confusões e escândalos em público, chegou a tentar o suicídio. Esta é a descrição feita por Manoel Carlos, autor da minissérie global: “Maysa era inteligente, preparada, viajada. Não era uma boboca. Ela foi sempre muito passional, uma mulher que se atirava em tudo de cabeça. Com ela, não havia meias medidas. Seu comportamento era abissal. Era uma mulher de excessos, que amava demais, bebia demais, fumava demais”. As anotações de seus diários particulares corroboram as afirmações de Manoel. Em uma de suas observações, Maysa vaticinou: “Há gritos incríveis dentro de mim, que me povoam da mais imensa solidão”. Sua interpretação de “Ne Me Quitte Pas”, do francês Jacques Brel, parece emprestar voz e melodia às suas palavras doloridas.
Em uma de suas últimas entrevistas, Maysa afirmou: “Não tenho medo da morte. Tenho a impressão de que jamais morrerei”. Porém, na última anotação registrada em seu diário, escreveu: “E se o amanhã não chegar?”. Maysa Matarazzo faleceu em um acidente automobilístico na Ponte Rio-Niterói, em 22 de janeiro de 1977, aos 41 anos de idade.


